segunda-feira, 12 de março de 2012

Treinamento de Sábado

Estou postando porque a Naty pediu para eu colocar aqui meus sentimentos. Da última vez o que aconteceu foi um fiasco. A turma entrou e quando chegou a hora do grupo dela, cadê? Desisti de alguns sonhos para tentar construir outro que, vejo, está se esvaindo. Sim, está escapando por entre meus dedos.

Mas hoje não vou lamentar, nem chorar pelo leite derramado. Todo mundo sabe, sou uma incógnita. Mas não tolerei ela vir me dizer que eu fiz tudo errado. Como assim? e olha que ela nem sabe que estive na Cidade Vazia.

Fui e voltei. Ela nem desconfiou que eu fui e voltei. Me ligou mais tarde e pensou que eu estivesse na cama, mas eu acordei e fui direto para a Palavra.

Ela não soube usar a Palavra.

Desistiu.

Peça pra colocar no Blog do Luizinho. Eu não vou entender se não fizer.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A Cidade Vazia

Acabo de chegar da cidade vazia. Um lugar que prometo não voltar nunca mais toda vez que saio de lá. Mas toda vez tenho necessidade de estar lá. E volto.

A Cidade Vazia é um lugar que só eu conheço, ninguém mais. É um mundo onde só eu entro, e saio de lá, às vezes satisfeito e realizado, ao mesmo tempo que exausto, aparovado e arrependido.

A Cidade Vazia é uma cidade sitiada por forças proibidas. Pessoas estranhas, vazias, desnorteadas entram nela e saem ainda mais vazias, aflitas, oprimidas e exaustas. Mas todas elas têm necessidade de voltar pra lá.

Voltei agora de lá, como outras vezes tenho voltado. Cada vez mais frequente. Cada vez com intervalos menores.

Não é uma casa de prostituição, embora concluam. É um lugar realmente vazio. Mas não é imaginário. Este não.

Não me resta mais nada a não ser lamentar a maldita coragem que me fez ir pra lá. Eu sou uma pessoa em desencontro.

A solidão me consome nestes dias de pouca vontade para as coisas carnais. Não como, não durmo, não transo. Fazer cocô virou momento de luxo e prazer. Até o xixi sai prazeroso depois de várias garrafinhas de Stella Artois. Não bebo solidão.

Sobrevivo.

Sinto cada vez mais necessidade de ficar sozinho, escondido, longe de qualquer ser que se movimente. Homem ou animal. Com fantasmas eu já me acostumei. São bons companheiros na madrugada.

O prazer caminha lado a lado com um estúpido mal estar quando vou urinar sem ter bebido. Tenho a impresão de que meu organismo está funcionando apenas com cinquenta por cento de atividade. Meu cérebro, no piloto automático. Não percebo quando como, durmo ou satisfaço qualquer outra necessidade fisiológica.

Estou exalando um cheiro fétido. O que é isso? eu nem bebi e estou delirando.

Cidadãos da Cidade Vazia, ouçam o que tenho a dizer, como tantas outras vezes já lhes disse (mas agora, é verdade): eu não vou voltar pra esta cidade infeliz. Eu não vou voltar para esta cidade proibida para bonitos, sadios e espertos. Não vou fumar, não vou beber. Sexo é bobagem, eu sinto minha genitália esconder, sem querer até que minhas mãos a toquem.

Meu Deus, isso é discurso de viciado.

Meus amigos, cadê?, diz a cantora. "Meu amor, cadê você? eu acordei, não tem ninguém ao lado".

Vou ao analista e amanhã vou transcrever minha consulta neste blog infeliz.

Alguém me traz de volta aquela estranha felicidade? E me encoraja a tomar pelo menos um banho?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Dia 24 de Fevereiro de 2012

Cheguei aqui no laboratório. Não tinha a menor ideia do que colocar no título. Coloquei a data, embora nada signifique neste momento.

Ando tendo pesadelos com minha casa antiga. A casa onde mora minha filha. Desde que eu a deixei, sinto que parte de mim ficou lá, presa, indecisa, engarrafada. Sim, engarrafada. É exatamente como me sinto. Engarrafado. Ando sem noção, sem paciência, sem misericórdia.

É chato perceber que estou indo para o lado errado e que mesmo assim prossigo, equivocado, vazio. É chato e irônico perceber as falhas e continuar nelas, achando que tudo voltará ao seu lugar. Eu já vi esse filme antes. Estou repetindo exatamente a mesma história.

Sinto muita solidão e saudade da minha filha. Meu pai deixou de ser aquele fantasma e agora me aconselha nas noites de uísque e destilados. Este homem é uma praga. Quando me sinto encurralado, fecho a porta do banheiro, faço caretas e grito, sussurrando... digo coisas sem nexo, babo, gozo, esperneio, dou tapas na minha cabeça e choro. Deixo livre o inconsciente. São assim os loucos. A loucura é o consciente que está externo, sem escrúpulos ou pudor.

Não entendo o porquê de as pessoas terem tanto pudor e medo de serem loucas e transviadas. Eu sou assim, mas é só a casca. Tenho ímpetos de me tatuar, de malhar, de subir em um palco e cantar horas a fio, de fazer sexo em grupo, de pichar, sei lá... depois fumar um back, desmaiar.

Continuo involuntário. Obrigado a fazer as coisas para não parecer um hermitão. Antes de escovar os dentes, pentear os cabelos ou tomar banho, tenho que respirar bem fundo e pensar em coisas boas. Por minha vontade ficaria à mercê dos meus desvarios, em casa, fumando, bebendo, tirando meleca do nariz e coçando o saco.

A coceira me acompanha, complacente e indolente. Às vezes não sei que horas são e tenho preguiça de olhar no relógio. Quando a vida me aperta eu digo: "ai, Senhor, não aguento", e caio, exausto, consumido pela minha própria vontade de sumir do mapa.

Talvez eu esteja morto em vida. Mas eu gosto da vida meio morta. Me divirto mais vendo pornografias do que saindo com os amigos. Sexo pra mim só aqueles virtuais onde eu posso gozar sem pudor e sem medo de sujar o tapete. Prazer mesmo só de vez em quando, na cidade proibida.

Escrever escatologias me traz profunda reflexão, pois é a verdade sobre mim que transpassa meu comando central. Às vezes me pego falando alto e gesticulando coisas involuntárias e enfáticas... coisas de gente doida mesmo. E de gente sincera.

Na sala de gente esquisita eu sou o mais desengoçado de todos. Abro minha boca e meu hálito está fétido de cáseos. Me sinto podre. Me sinto pobre. Me sinto sujo. Eu hoje não tenho dinheiro nem para comer um sanduíche. Minha conta bancária está ensanguentada.

Minha querida amiga me pediu para tirar os videos da internet. De um tempo em que estivemos felizes... (será?). Talvez realmente eu estivesse feliz naquela praia com ela. Mas vejo que são amigos de veraneio. Depois das férias ninguém se toca, ninguém se conhece. E lá estou eu sozinho de novo. É normal.

Me vejo entre dois mundos fictícios. Alterno entre um e outro, mas não saio da ilusão. Eu sinto que estou no lugar errado, fazendo a coisa errada, com pessoas erradas, no trabalho errado... não é impressão. Eu sinto isso o tempo todo, desde a hora que levanto. Não raro sinto que estou vivendo a vida de outra pessoa. Não sou eu. Não sou eu. Às vezes quando me olho no espelho não sou eu quem está lá. É estranho.

Estimo que parte de minha história tenha se perdido ao longo de trinta anos de uma vaga carreira. Foi um projeto de vida lançado ao leu.

Estimo que não haja tempo para um recomeço. Nem que haja lágrimas para um arrependimento.

Estimo que esta dor entrelaçada não consiga ser superada.

Estou longe demais pra voltar. Na reta final só vejo livros e um copo vazio de uísque barato. Meu Deus!

Estimo que toda minha vida tenha sido isso. E apenas isso.

domingo, 18 de setembro de 2011

      Uma história da tradição Zen conta que um guerreiro samurai foi ver o mestre Hakuin e perguntou:
      - O inferno existe? E o céu? Onde estão as portas que levam a um e a outro? Por onde posso entrar?
      - Quem é você? - perguntou Hakuin.
      - Sou um samurai - respondeu o guerreiro -, um chefe de samurais. Sou digno do respeito do imperador.
      Hakuin sorriu e respondeu:
      - Samurai? Você parece um mendigo.
      Com o orgulho ferido, o samurai desembainhou sua espada. Estava a ponto de matar Hakuin quando este lhe disse:
      - Esta é a porta do inferno.
      Imediatamente o samurai entendeu. Ao guardar a espada na bainha, Hakuin disse:
      - E esta é a porta do céu.


Extraído do livro: 99 doses de filosofia para despertar a mente e combater as preocupações. Autor: Allan Percy - p. 25

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Nietzsche

Não sei se concordo com Nietzsche quando diz que a palavra mais ofensiva e a carta mais grosseira são melhores e mais educadas que o silêncio. Sempre achei meu silêncio joia valiosa demais e sempre achei melhor me calar a proferir palavras das quais iria me arrepender. Segundo ele é melhor expressar nossos sentimentos - mesmo sem encontrar as palavras adequadas - do que ofender com o silêncio.

Eu e Danuza sempre nos ofendemos com o silêncio. Até que um dia o silêncio nos matou.Vivíamos numa incrível e inescrupulosa guerra psicológica. Ela nunca se esforçou para ser minha. Eu nunca a amei. Agora, lendo Nietzsche, percebo que eu estava errado. Essa porra de silêncio foi o que nos matou. 

É triste, não encontro um amigo para sofrer comigo, se condoendo da minha estupidez. Alegrias também não compartilho, porque é ainda mais difícil encontrar alguém que seja capaz de se alegrar comigo com extrema sinceridade. Poucas pessoas são capazes de triunfar com a gente. Não é bíblico, é poético. Eu também sou dotado de uma dor chamada inveja. Quando alguém triunfa eu sou um dos tais que se interpõe e indaga: por que não eu?

Assim, é mister que eu passe esses raros momentos de reflexão e solidão. Na sociedade as pessoas se esquivam de mim talvez por me acharem odioso demais. Ou talvez insolente, orgulhoso. Às vezes eu sou assim. 

Uma colega de classe resolveu fazer um chá de panela. Eu fui um dos que ficou para trás, sem convite, sem praça. Existe alguma coisa errada com meu comportamento. Coisas de bruxas. Foi a praga que Danuza lançou em mim.

No meu diário, só um verso de Voltaire, absoluto:

"A amizade é um contrato tácito entre duas pessoas sensíveis e virtuosas. Sensíveis porque um monge ou um solitário podem ser pessoas de bem e mesmo assim não conhecer a amizade. E virtuosas porque os malvados só têm cúmplices; os festeiros, companheiros de farra; os ambiciosos, sócios; os políticos reúnem os partidários ao seu redor; os vagabundos têm contatos; e os príncipes, cortesãos. Mas só as pessoas virtuosas têm amigos."

domingo, 11 de setembro de 2011

Explicação

Sim, entendo minha mãe. Entendo quando ela se tranca, solitária, louca para ficar um pouco no vazio de sua letargia. Entendo quando, exausta, quer se ver livre de palavras como "obrigada", "volte sempre", "também te amo". Sim, eu a entendo. Entendo também o meu pai, quando, fatigado, preferia o desconforto do sofá para suas sestas sôfregas. Entre um acesso de tosse e outro ele não dizia uma só palavra, apenas gemia, em um processo lento de compaixão e morte.

Entendo-os perfeitamente, porque sinto exatamente a mesma coisa, a mesma apatia, a mesma falta de coragem para fazer coisas consideradas triviais. Meu Deus, como eu os entendo! Às vezes eu só quero ficar em paz com minha costumeira solidão, e com minha frágil ignorância.

Quero dizer que os entendo, e que acredito no legado que me deixaram. Um misto de tristeza e condolência. Um pouco de saudade, um pouco de dor, um pouco de preocupação, fome e impaciência. 

Queria que me entendessem assim também. Quem? o mundo. Certas horas não tenho ânimo para dizer um "oi". Atos simples como escovar os dentes, às vezes, é uma ação que me traz profundo aborrecimento. Por que será que as pessoas não percebem isso? e por que será que essa coceira que não passa coça mais quando as coisas estão fora de seus lugares?

É como agora. Está tudo meio morno, meio morto. Ninguém, senão este copo de uísque pode me acompanhar. A tristeza que me beira agora é a mesma tristeza de meus pais, às vezes tão presentes, às vezes mortos.

Senhor, eu não tenho palavras.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

O dia Onze

Hoje é dia onze de agosto. Este mês que não merece ser maiúsculo. Já se passaram quase vinte anos da morte dele, mas como ainda é recente! Não é impressão minha que os meses de julho sempre me são escassos e magros e que os meses de agosto são cinzas e frios.

Jogar conversa fora é bobagem. Pra que fingir que este dia não me convém se é tão viva aquela imagem morta. Meu pai.

A tristeza hoje é carmesim. Meus sentimentos turvos, minha alma abúlica, meu espírito ancião. É o temível mês de agosto. Quero mas me permito sorrir, ou tirar um período sabático para me redimir e voltar a ser o que antes eu era para Deus, e o perdi.

Ah, pobre de mim, que sou insano. Esta noite está tão fria. Talvez a esta hora ele estivesse morrendo ou agonizando naquele hospital que cheira eucalipto. Tem cheiro de morte.

Está viva na minha mente a figura dele estendida por sobre a maca, uma lágrima escorrida no canto do olho esquerdo. Chorou por quem? foi a dor? nunca vou saber o que houve naquela terrível noite. Cinco dias antes eu o vira no terreiro de nossa casa, meio sem vida. (Ele não era imortal?).

Bem, os pais são seres fortes e inabaláveis até o dia em que morrem assim, do nada, e deixam um rastro de saudade e arrependimento. Quem conhece a dor da saudade?

A Paz, meu pai. Sua bênção.