Acabo de chegar da cidade vazia. Um lugar que prometo não voltar nunca mais toda vez que saio de lá. Mas toda vez tenho necessidade de estar lá. E volto.
A Cidade Vazia é um lugar que só eu conheço, ninguém mais. É um mundo onde só eu entro, e saio de lá, às vezes satisfeito e realizado, ao mesmo tempo que exausto, aparovado e arrependido.
A Cidade Vazia é uma cidade sitiada por forças proibidas. Pessoas estranhas, vazias, desnorteadas entram nela e saem ainda mais vazias, aflitas, oprimidas e exaustas. Mas todas elas têm necessidade de voltar pra lá.
Voltei agora de lá, como outras vezes tenho voltado. Cada vez mais frequente. Cada vez com intervalos menores.
Não é uma casa de prostituição, embora concluam. É um lugar realmente vazio. Mas não é imaginário. Este não.
Não me resta mais nada a não ser lamentar a maldita coragem que me fez ir pra lá. Eu sou uma pessoa em desencontro.
A solidão me consome nestes dias de pouca vontade para as coisas carnais. Não como, não durmo, não transo. Fazer cocô virou momento de luxo e prazer. Até o xixi sai prazeroso depois de várias garrafinhas de Stella Artois. Não bebo solidão.
Sobrevivo.
Sinto cada vez mais necessidade de ficar sozinho, escondido, longe de qualquer ser que se movimente. Homem ou animal. Com fantasmas eu já me acostumei. São bons companheiros na madrugada.
O prazer caminha lado a lado com um estúpido mal estar quando vou urinar sem ter bebido. Tenho a impresão de que meu organismo está funcionando apenas com cinquenta por cento de atividade. Meu cérebro, no piloto automático. Não percebo quando como, durmo ou satisfaço qualquer outra necessidade fisiológica.
Estou exalando um cheiro fétido. O que é isso? eu nem bebi e estou delirando.
Cidadãos da Cidade Vazia, ouçam o que tenho a dizer, como tantas outras vezes já lhes disse (mas agora, é verdade): eu não vou voltar pra esta cidade infeliz. Eu não vou voltar para esta cidade proibida para bonitos, sadios e espertos. Não vou fumar, não vou beber. Sexo é bobagem, eu sinto minha genitália esconder, sem querer até que minhas mãos a toquem.
Meu Deus, isso é discurso de viciado.
Meus amigos, cadê?, diz a cantora. "Meu amor, cadê você? eu acordei, não tem ninguém ao lado".
Vou ao analista e amanhã vou transcrever minha consulta neste blog infeliz.
Alguém me traz de volta aquela estranha felicidade? E me encoraja a tomar pelo menos um banho?
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