Hoje é dia onze de agosto. Este mês que não merece ser maiúsculo. Já se passaram quase vinte anos da morte dele, mas como ainda é recente! Não é impressão minha que os meses de julho sempre me são escassos e magros e que os meses de agosto são cinzas e frios.
Jogar conversa fora é bobagem. Pra que fingir que este dia não me convém se é tão viva aquela imagem morta. Meu pai.
A tristeza hoje é carmesim. Meus sentimentos turvos, minha alma abúlica, meu espírito ancião. É o temível mês de agosto. Quero mas me permito sorrir, ou tirar um período sabático para me redimir e voltar a ser o que antes eu era para Deus, e o perdi.
Ah, pobre de mim, que sou insano. Esta noite está tão fria. Talvez a esta hora ele estivesse morrendo ou agonizando naquele hospital que cheira eucalipto. Tem cheiro de morte.
Está viva na minha mente a figura dele estendida por sobre a maca, uma lágrima escorrida no canto do olho esquerdo. Chorou por quem? foi a dor? nunca vou saber o que houve naquela terrível noite. Cinco dias antes eu o vira no terreiro de nossa casa, meio sem vida. (Ele não era imortal?).
Bem, os pais são seres fortes e inabaláveis até o dia em que morrem assim, do nada, e deixam um rastro de saudade e arrependimento. Quem conhece a dor da saudade?
A Paz, meu pai. Sua bênção.