Envelhecer é um processo doloroso. Para você isso é um clichê? Para mim isso é uma constante. Nunca pensei que aos trinta anos eu iria começar a sentir o peso dos anos. Sabe aquela história de evelhecer é bom devido ao amadurecimento que se adquire? Isso é despeito. Envelhecer é uma tristeza.
Outro dia tive uma acesso de pânico. Achei que estava ficando calvo porque senti os cabelos ralearem. E quando as pessoas dizem, entusiastas e sarcásticas: "suas entradas já estão começando a aparecer". Ave Maria, é hora do choque.
Chego em casa e tenho aquele leve sensação de desconforto. Sempre me acompanha. Tenho síndrome de lugares feios, síndrome da limpeza... e agora, a síndrome do envelhecimento.
Às vezes me culpo por achar que tenho uma mulher que não é tão bela. E sobretudo, uma mulher a qual não amo. Fico pensando que estou feito aqueles homens de meia-idade que estão buscando uma virgem para namorar porque está com a síndrome do tiozão. Olho para minha mulher e noto-a frívola, apática, sem interesse pelas coisas. Temo que ela também me olhe e que também sinta a mesma coisa por mim. Dela deve partir um sentimento de que já teve um homem interessante em sua vida. Hoje ela está ao lado de um homem sem muito sucesso, que viveu de aparências, e que foge da realidade. Ela deve pensar que meus anos de glória se acabaram. E acabaram mesmo.
Mas quando a olho sinto aquele descaso pelas coisas. Aquele medíocre e claro desinteresse em me agradar. Ou, quando tenta me agradar, sinto claramente aquele esforço redobrado.
Ela tem todo direito de pensar assim de mim. E nós temos todo o direito de vivermos essa vida clandestina, que não sabemos onde vai dar.
Minha mulher acabou se tornando uma senhora. Temo que eu esteja me tornando um senhor. Faltamente vou me tornar. Mas como é triste saber que a barriga está crescendo e os músculos estão ficando cada vez mais flácidos e desproporcionais. Os braços continuam finos. É mesmo estranho.
Permito-me então falar da minha mulher. (Se eu a amasse, não estaria transcrevendo estas fatídicas constatações!). Ela deve me olhar de manhã, com o rosto inchado, cabelos crespos atrapalhados... e deve pensar que agora somos o senhor e a senha Martins. E acabamos de conquistar nosso lugar no clube dos senhores.
Já ela não se prepara mais para mim. Sua beleza raleou-se junto com aquela vontade de me tornar o homem mais satisfeito do planeta. Batom tornou-se um quesito de festa. Aquela roupa mais justa somente naquelas ocasiões (as quais nem faço mais questão de ir). Seu corpo já não corresponde aqueles trejeitos de mulher sensual. Não tem mais aquela forma, não tem mais aquele atrativo.
Então acabou?
Não sei. Pressinto que já tenha acabado há uns dois anos. Mas só agora nos damos conta disso. Não é tarde mais, mas também não é tão cedo. Tomar decisões de separar virou discussão de pecúnio. Não conseguimos mais abrir mão um do outro. Não é por amor, é questão de posse e necessidade. Talvez costume e rotina... a vida segue corriqueira e sem graça, como os meus banhos matutinos.
Aquele amor gostoso é puro acaso. Não ocorre nas segundas, nem terças, nem quartas. Acontece quando a necessidade horrenda e estúpida do ser humano se manifesta. Por isso acho o sexo sujo e frustrante. Parte da minha vida foi desperdiçada no banheiro, nas minhas brincadeiras solitárias.
As minhas maiores alegrias foram solitárias. As minhas maiores conquistas foram comigo mesmo.
Aos trinta anos. Meu Deus. Me sinto à beira do envelhecimento. Você diria: mas que estupidez! é a flor da idade. Não, não é. A flor da idade foi quando eu tinha 24 ou 25 anos. Hoje as decisões já pesam mais. Amadurecer é bom para os outros, porque as pessoas acham que os mais velhos já se resolveram. Depois de uma certa idade todo mundo parece santo ou virou evangélico. Não é por arrependimento. Muitas vezes é porque aqueles lindos anos acabaram... como eu sinto que acabaram os meus.
Sinto como Ofélia que tem como companhia a agulha e o crochê. E vê sua vida se passar no parapeito da janela.
Deve ser horrível envelhecer sem poesia. Eu pelo menos tenho algumas cartas na manga. Uma história inventada, um conto solitário... uma música. Quem não tem, já pode morrer.
Deixa-me dizer. É péssimo se achar velho e feio no espelho. Quem disser que gosta está mentindo. É muito ruim ver-se esvaindo em anos que não voltam mais.
Deixa-me falar essas coisas que me são verdades cruas.
Eu só falo a verdade quando escrevo.
Eu quase nunca falo a verdade. Mas envelhecer... essa é uma verdade da qual quero me esconder.