Uma história da tradição Zen conta que um guerreiro samurai foi ver o mestre Hakuin e perguntou:
- O inferno existe? E o céu? Onde estão as portas que levam a um e a outro? Por onde posso entrar?
- Quem é você? - perguntou Hakuin.
- Sou um samurai - respondeu o guerreiro -, um chefe de samurais. Sou digno do respeito do imperador.
Hakuin sorriu e respondeu:
- Samurai? Você parece um mendigo.
Com o orgulho ferido, o samurai desembainhou sua espada. Estava a ponto de matar Hakuin quando este lhe disse:
- Esta é a porta do inferno.
Imediatamente o samurai entendeu. Ao guardar a espada na bainha, Hakuin disse:
- E esta é a porta do céu.
Extraído do livro: 99 doses de filosofia para despertar a mente e combater as preocupações. Autor: Allan Percy - p. 25
domingo, 18 de setembro de 2011
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Nietzsche
Não sei se concordo com Nietzsche quando diz que a palavra mais ofensiva e a carta mais grosseira são melhores e mais educadas que o silêncio. Sempre achei meu silêncio joia valiosa demais e sempre achei melhor me calar a proferir palavras das quais iria me arrepender. Segundo ele é melhor expressar nossos sentimentos - mesmo sem encontrar as palavras adequadas - do que ofender com o silêncio.
Eu e Danuza sempre nos ofendemos com o silêncio. Até que um dia o silêncio nos matou.Vivíamos numa incrível e inescrupulosa guerra psicológica. Ela nunca se esforçou para ser minha. Eu nunca a amei. Agora, lendo Nietzsche, percebo que eu estava errado. Essa porra de silêncio foi o que nos matou.
É triste, não encontro um amigo para sofrer comigo, se condoendo da minha estupidez. Alegrias também não compartilho, porque é ainda mais difícil encontrar alguém que seja capaz de se alegrar comigo com extrema sinceridade. Poucas pessoas são capazes de triunfar com a gente. Não é bíblico, é poético. Eu também sou dotado de uma dor chamada inveja. Quando alguém triunfa eu sou um dos tais que se interpõe e indaga: por que não eu?
Assim, é mister que eu passe esses raros momentos de reflexão e solidão. Na sociedade as pessoas se esquivam de mim talvez por me acharem odioso demais. Ou talvez insolente, orgulhoso. Às vezes eu sou assim.
Uma colega de classe resolveu fazer um chá de panela. Eu fui um dos que ficou para trás, sem convite, sem praça. Existe alguma coisa errada com meu comportamento. Coisas de bruxas. Foi a praga que Danuza lançou em mim.
No meu diário, só um verso de Voltaire, absoluto:
"A amizade é um contrato tácito entre duas pessoas sensíveis e virtuosas. Sensíveis porque um monge ou um solitário podem ser pessoas de bem e mesmo assim não conhecer a amizade. E virtuosas porque os malvados só têm cúmplices; os festeiros, companheiros de farra; os ambiciosos, sócios; os políticos reúnem os partidários ao seu redor; os vagabundos têm contatos; e os príncipes, cortesãos. Mas só as pessoas virtuosas têm amigos."
domingo, 11 de setembro de 2011
Explicação
Sim, entendo minha mãe. Entendo quando ela se tranca, solitária, louca para ficar um pouco no vazio de sua letargia. Entendo quando, exausta, quer se ver livre de palavras como "obrigada", "volte sempre", "também te amo". Sim, eu a entendo. Entendo também o meu pai, quando, fatigado, preferia o desconforto do sofá para suas sestas sôfregas. Entre um acesso de tosse e outro ele não dizia uma só palavra, apenas gemia, em um processo lento de compaixão e morte.
Entendo-os perfeitamente, porque sinto exatamente a mesma coisa, a mesma apatia, a mesma falta de coragem para fazer coisas consideradas triviais. Meu Deus, como eu os entendo! Às vezes eu só quero ficar em paz com minha costumeira solidão, e com minha frágil ignorância.
Quero dizer que os entendo, e que acredito no legado que me deixaram. Um misto de tristeza e condolência. Um pouco de saudade, um pouco de dor, um pouco de preocupação, fome e impaciência.
Queria que me entendessem assim também. Quem? o mundo. Certas horas não tenho ânimo para dizer um "oi". Atos simples como escovar os dentes, às vezes, é uma ação que me traz profundo aborrecimento. Por que será que as pessoas não percebem isso? e por que será que essa coceira que não passa coça mais quando as coisas estão fora de seus lugares?
É como agora. Está tudo meio morno, meio morto. Ninguém, senão este copo de uísque pode me acompanhar. A tristeza que me beira agora é a mesma tristeza de meus pais, às vezes tão presentes, às vezes mortos.
Senhor, eu não tenho palavras.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
O dia Onze
Hoje é dia onze de agosto. Este mês que não merece ser maiúsculo. Já se passaram quase vinte anos da morte dele, mas como ainda é recente! Não é impressão minha que os meses de julho sempre me são escassos e magros e que os meses de agosto são cinzas e frios.
Jogar conversa fora é bobagem. Pra que fingir que este dia não me convém se é tão viva aquela imagem morta. Meu pai.
A tristeza hoje é carmesim. Meus sentimentos turvos, minha alma abúlica, meu espírito ancião. É o temível mês de agosto. Quero mas me permito sorrir, ou tirar um período sabático para me redimir e voltar a ser o que antes eu era para Deus, e o perdi.
Ah, pobre de mim, que sou insano. Esta noite está tão fria. Talvez a esta hora ele estivesse morrendo ou agonizando naquele hospital que cheira eucalipto. Tem cheiro de morte.
Está viva na minha mente a figura dele estendida por sobre a maca, uma lágrima escorrida no canto do olho esquerdo. Chorou por quem? foi a dor? nunca vou saber o que houve naquela terrível noite. Cinco dias antes eu o vira no terreiro de nossa casa, meio sem vida. (Ele não era imortal?).
Bem, os pais são seres fortes e inabaláveis até o dia em que morrem assim, do nada, e deixam um rastro de saudade e arrependimento. Quem conhece a dor da saudade?
A Paz, meu pai. Sua bênção.
Jogar conversa fora é bobagem. Pra que fingir que este dia não me convém se é tão viva aquela imagem morta. Meu pai.
A tristeza hoje é carmesim. Meus sentimentos turvos, minha alma abúlica, meu espírito ancião. É o temível mês de agosto. Quero mas me permito sorrir, ou tirar um período sabático para me redimir e voltar a ser o que antes eu era para Deus, e o perdi.
Ah, pobre de mim, que sou insano. Esta noite está tão fria. Talvez a esta hora ele estivesse morrendo ou agonizando naquele hospital que cheira eucalipto. Tem cheiro de morte.
Está viva na minha mente a figura dele estendida por sobre a maca, uma lágrima escorrida no canto do olho esquerdo. Chorou por quem? foi a dor? nunca vou saber o que houve naquela terrível noite. Cinco dias antes eu o vira no terreiro de nossa casa, meio sem vida. (Ele não era imortal?).
Bem, os pais são seres fortes e inabaláveis até o dia em que morrem assim, do nada, e deixam um rastro de saudade e arrependimento. Quem conhece a dor da saudade?
A Paz, meu pai. Sua bênção.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Envelhecer
Envelhecer é um processo doloroso. Para você isso é um clichê? Para mim isso é uma constante. Nunca pensei que aos trinta anos eu iria começar a sentir o peso dos anos. Sabe aquela história de evelhecer é bom devido ao amadurecimento que se adquire? Isso é despeito. Envelhecer é uma tristeza.
Outro dia tive uma acesso de pânico. Achei que estava ficando calvo porque senti os cabelos ralearem. E quando as pessoas dizem, entusiastas e sarcásticas: "suas entradas já estão começando a aparecer". Ave Maria, é hora do choque.
Chego em casa e tenho aquele leve sensação de desconforto. Sempre me acompanha. Tenho síndrome de lugares feios, síndrome da limpeza... e agora, a síndrome do envelhecimento.
Às vezes me culpo por achar que tenho uma mulher que não é tão bela. E sobretudo, uma mulher a qual não amo. Fico pensando que estou feito aqueles homens de meia-idade que estão buscando uma virgem para namorar porque está com a síndrome do tiozão. Olho para minha mulher e noto-a frívola, apática, sem interesse pelas coisas. Temo que ela também me olhe e que também sinta a mesma coisa por mim. Dela deve partir um sentimento de que já teve um homem interessante em sua vida. Hoje ela está ao lado de um homem sem muito sucesso, que viveu de aparências, e que foge da realidade. Ela deve pensar que meus anos de glória se acabaram. E acabaram mesmo.
Mas quando a olho sinto aquele descaso pelas coisas. Aquele medíocre e claro desinteresse em me agradar. Ou, quando tenta me agradar, sinto claramente aquele esforço redobrado.
Ela tem todo direito de pensar assim de mim. E nós temos todo o direito de vivermos essa vida clandestina, que não sabemos onde vai dar.
Minha mulher acabou se tornando uma senhora. Temo que eu esteja me tornando um senhor. Faltamente vou me tornar. Mas como é triste saber que a barriga está crescendo e os músculos estão ficando cada vez mais flácidos e desproporcionais. Os braços continuam finos. É mesmo estranho.
Permito-me então falar da minha mulher. (Se eu a amasse, não estaria transcrevendo estas fatídicas constatações!). Ela deve me olhar de manhã, com o rosto inchado, cabelos crespos atrapalhados... e deve pensar que agora somos o senhor e a senha Martins. E acabamos de conquistar nosso lugar no clube dos senhores.
Já ela não se prepara mais para mim. Sua beleza raleou-se junto com aquela vontade de me tornar o homem mais satisfeito do planeta. Batom tornou-se um quesito de festa. Aquela roupa mais justa somente naquelas ocasiões (as quais nem faço mais questão de ir). Seu corpo já não corresponde aqueles trejeitos de mulher sensual. Não tem mais aquela forma, não tem mais aquele atrativo.
Então acabou?
Não sei. Pressinto que já tenha acabado há uns dois anos. Mas só agora nos damos conta disso. Não é tarde mais, mas também não é tão cedo. Tomar decisões de separar virou discussão de pecúnio. Não conseguimos mais abrir mão um do outro. Não é por amor, é questão de posse e necessidade. Talvez costume e rotina... a vida segue corriqueira e sem graça, como os meus banhos matutinos.
Aquele amor gostoso é puro acaso. Não ocorre nas segundas, nem terças, nem quartas. Acontece quando a necessidade horrenda e estúpida do ser humano se manifesta. Por isso acho o sexo sujo e frustrante. Parte da minha vida foi desperdiçada no banheiro, nas minhas brincadeiras solitárias.
As minhas maiores alegrias foram solitárias. As minhas maiores conquistas foram comigo mesmo.
Aos trinta anos. Meu Deus. Me sinto à beira do envelhecimento. Você diria: mas que estupidez! é a flor da idade. Não, não é. A flor da idade foi quando eu tinha 24 ou 25 anos. Hoje as decisões já pesam mais. Amadurecer é bom para os outros, porque as pessoas acham que os mais velhos já se resolveram. Depois de uma certa idade todo mundo parece santo ou virou evangélico. Não é por arrependimento. Muitas vezes é porque aqueles lindos anos acabaram... como eu sinto que acabaram os meus.
Sinto como Ofélia que tem como companhia a agulha e o crochê. E vê sua vida se passar no parapeito da janela.
Deve ser horrível envelhecer sem poesia. Eu pelo menos tenho algumas cartas na manga. Uma história inventada, um conto solitário... uma música. Quem não tem, já pode morrer.
Deixa-me dizer. É péssimo se achar velho e feio no espelho. Quem disser que gosta está mentindo. É muito ruim ver-se esvaindo em anos que não voltam mais.
Deixa-me falar essas coisas que me são verdades cruas.
Eu só falo a verdade quando escrevo.
Eu quase nunca falo a verdade. Mas envelhecer... essa é uma verdade da qual quero me esconder.
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