Cheguei aqui no laboratório. Não tinha a menor ideia do que colocar no título. Coloquei a data, embora nada signifique neste momento.
Ando tendo pesadelos com minha casa antiga. A casa onde mora minha filha. Desde que eu a deixei, sinto que parte de mim ficou lá, presa, indecisa, engarrafada. Sim, engarrafada. É exatamente como me sinto. Engarrafado. Ando sem noção, sem paciência, sem misericórdia.
É chato perceber que estou indo para o lado errado e que mesmo assim prossigo, equivocado, vazio. É chato e irônico perceber as falhas e continuar nelas, achando que tudo voltará ao seu lugar. Eu já vi esse filme antes. Estou repetindo exatamente a mesma história.
Sinto muita solidão e saudade da minha filha. Meu pai deixou de ser aquele fantasma e agora me aconselha nas noites de uísque e destilados. Este homem é uma praga. Quando me sinto encurralado, fecho a porta do banheiro, faço caretas e grito, sussurrando... digo coisas sem nexo, babo, gozo, esperneio, dou tapas na minha cabeça e choro. Deixo livre o inconsciente. São assim os loucos. A loucura é o consciente que está externo, sem escrúpulos ou pudor.
Não entendo o porquê de as pessoas terem tanto pudor e medo de serem loucas e transviadas. Eu sou assim, mas é só a casca. Tenho ímpetos de me tatuar, de malhar, de subir em um palco e cantar horas a fio, de fazer sexo em grupo, de pichar, sei lá... depois fumar um back, desmaiar.
Continuo involuntário. Obrigado a fazer as coisas para não parecer um hermitão. Antes de escovar os dentes, pentear os cabelos ou tomar banho, tenho que respirar bem fundo e pensar em coisas boas. Por minha vontade ficaria à mercê dos meus desvarios, em casa, fumando, bebendo, tirando meleca do nariz e coçando o saco.
A coceira me acompanha, complacente e indolente. Às vezes não sei que horas são e tenho preguiça de olhar no relógio. Quando a vida me aperta eu digo: "ai, Senhor, não aguento", e caio, exausto, consumido pela minha própria vontade de sumir do mapa.
Talvez eu esteja morto em vida. Mas eu gosto da vida meio morta. Me divirto mais vendo pornografias do que saindo com os amigos. Sexo pra mim só aqueles virtuais onde eu posso gozar sem pudor e sem medo de sujar o tapete. Prazer mesmo só de vez em quando, na cidade proibida.
Escrever escatologias me traz profunda reflexão, pois é a verdade sobre mim que transpassa meu comando central. Às vezes me pego falando alto e gesticulando coisas involuntárias e enfáticas... coisas de gente doida mesmo. E de gente sincera.
Na sala de gente esquisita eu sou o mais desengoçado de todos. Abro minha boca e meu hálito está fétido de cáseos. Me sinto podre. Me sinto pobre. Me sinto sujo. Eu hoje não tenho dinheiro nem para comer um sanduíche. Minha conta bancária está ensanguentada.
Minha querida amiga me pediu para tirar os videos da internet. De um tempo em que estivemos felizes... (será?). Talvez realmente eu estivesse feliz naquela praia com ela. Mas vejo que são amigos de veraneio. Depois das férias ninguém se toca, ninguém se conhece. E lá estou eu sozinho de novo. É normal.
Me vejo entre dois mundos fictícios. Alterno entre um e outro, mas não saio da ilusão. Eu sinto que estou no lugar errado, fazendo a coisa errada, com pessoas erradas, no trabalho errado... não é impressão. Eu sinto isso o tempo todo, desde a hora que levanto. Não raro sinto que estou vivendo a vida de outra pessoa. Não sou eu. Não sou eu. Às vezes quando me olho no espelho não sou eu quem está lá. É estranho.
Estimo que parte de minha história tenha se perdido ao longo de trinta anos de uma vaga carreira. Foi um projeto de vida lançado ao leu.
Estimo que não haja tempo para um recomeço. Nem que haja lágrimas para um arrependimento.
Estimo que esta dor entrelaçada não consiga ser superada.
Estou longe demais pra voltar. Na reta final só vejo livros e um copo vazio de uísque barato. Meu Deus!
Estimo que toda minha vida tenha sido isso. E apenas isso.
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